Cledenilson Souza Martins
Gidalti Guedes da Silva
Michael Marçal dos Reis
Rubem Alves constrói uma breve
Estória sobre a formação docente e seus anseios para a sociedade contemporânea.
Dentre os pontos levantados neste capítulo “Sobre Jequitibás e Eucaliptos”,
Rubem Alves apresenta um dos maiores desafios postos para a formação docente na
sociedade contemporânea: devemos formar professores ou educadores? O autor
apresenta de modo metafórico os Jequitibás, representando os educadores, e os
Eucaliptos, representando os professores.
Educadores e Jequitibás remontam
tempos anteriores ao processo intenso de modernização capitalista a que o
Brasil fora submetido ao longo das últimas décadas. Os Jequitibás crescem
vagarosamente, não sabemos quem as planou. Vivem no habitat natural, seguindo os tempos e espaços dos ciclos e
estações. São como velhas árvores, com personalidade, portadores de uma
Estória, não substituíveis tão prontamente. Assim são os educadores, eles
habitam “um mundo em que a interioridade faz uma diferença, em que as pessoas
se definem por suas visões, paixões, esperanças e horizontes utópicos”.
Os Jequitibás são os profissionais
adormecidos em processo de extinção. Levam muito tempo para se formar este
Educador que tenha como foco a humanização de seu fazer pedagógico e que tenham
consciência de seus atos dentro e fora dos espaços de ensino.
Os educadores têm a educação como ato relacional, denso, que ocorre
entre pessoas, portadoras de descontentamentos e esperanças. A preocupação está
na formação da subjetividade, da afetividade, dos valores e da dimensão
estética do humano.
Professores e Eucaliptos refletem
as intensas transformações promovidas pela indústria, pela urbanização, pelo
avanço do capitalismo e pela universalização de uma racionalidade que a tudo
busca mensurar, quantificar e administrar. Os Eucaliptos crescem depressa,
resultado de um processo administrado de plantio, todos enfileirados, em
posição de “sentido”, aparentando maior ordem e adaptação. Enquanto os Educadores-Jequitibás
apontam para a idéia de pessoas, os Professores-Eucaliptos remontam a idéia de
funções, dando ênfase à produção, ao caráter utilitário, às ações passíveis de
controle, gerenciamento, mensuração.
Os Eucaliptos, profissionais
mecanizados e que podem ser encontrados em qualquer parte do mundo, levando em
consideração que podem ser produzidos (formados) em grande escala e em curto
espaço de tempo, se adaptação às condições do mercado. Eles são facilmente
substituíveis, por seu caráter idêntico e descartável, vivenciando a educação
com foco na reprodução do conhecimento e adaptação dos alunos ao mundo do
trabalho, do lucro, das cifras e dos negócios.
Para as condições de mercado
vigentes nesta década, estamos formando inúmeros Eucaliptos, isto de forma
consciente, tendo em vista que o Estado Brasileiro tem fomentado um programa de
formação docente em por todo País, para tentar sanar o déficit de professores
da educação básica e do ensino superior. As instituições de ensino superior,
atuando por meio do ensino presencial e pela educação à distância, recebem
milhares de alunos preocupados com a sua qualificação profissional. Pela
pressão e urgência do mercado, este processo educativo é acelerado, assumindo
um caráter tecnicista e pragmático. O caráter humanístico e integral da
educação é reduzido às necessidades do mundo do trabalho. Isso acarreta em uma
deformação dos cidadãos, uma vez que as leis de mercado (firmadas na
competição, no mérito e na exclusão) acabam por diluir os fundamentos éticos
sobre os quais as sociedades humanas devem se firmar, na busca de superação da
barbárie e das contradições socioeconômicas.
Este cenário educacional promove
uma metodologia de ensino que visa a reprodução e tem o aluno como um
recipiente de informações. O bom aluno deve ter a matéria decorada. O
profissional do ensino, neste ponto, preocupa-se em fazer com que seus alunos
reproduzam o conteúdo de forma a se ter um bom índice de aprovação. Fica de
fora deste processo a capacidade do professor despertar o aluno para a
pesquisa. Muito menos a capacidade estimular o educando para ser um cidadão
crítico, que questione os condicionantes históricos.
Muitos egressos dos cursos de formação docente,
que adentram as salas de aula com o ímpeto de ser um educador e de contribuir
para uma educação emancipatória e
libertadora, acabam sucumbindo e, por força do sistema educacional vigente,
perdem o vigor de seus sonhos e utopias. Assim como a inquisição fez com
Galileu que se retratou por dizer que a Terra girava em redor do sol, o
educador retorna à função de professor para que seja aproveitado pelo modelo de
educação existente. Urge que os profissionais da educação, que atuam como educadores, dialoguem com o caráter
administrado da educação na sociedade capitalista, sem reduzirem sua essência
docente às práticas tecnicistas e conteudísticas de ensino. Fica o desafio de,
enquanto profissionais da educação, vivermos em um habitat de Eucaliptos, sem
deixarmos de cultivar uma postura própria dos Jequitibás.
